Era na taba dos Manaus, hoja a altiva princesa do Rio Negro.
E um dia um moço tapuio, filho de tuxaua, dirigiu-se em uma igara ao pequeno regato que banha a ponta do Tarumã.
Era um moço lindo, o mais lindo de todos os moços de sua tribo.
Valente e ousado, como ele, nenhum outro havia aparecido.
Ninguém com mais destreza manejava a zarabatana temível, cuja flecha certeira cortava em meio dos ares o vôo da aracuã.
Ninguém com mais coragem brandia o tacape e entesava o arco.
Nos jogos com que celebravam as festas, sempre a palma da vitória cabia ao moço tapuio, ante quem os próprios anciãos respeitosos se curvavam.
Era o orgulho da tribo e o digno sucessor do velho tuxaua que tantas vezes fizera morder a poeira os ferozes Mundurucus.
E um dia o moço tapuio dirigiu-se em uma igara ao pequeno regato que banha a ponta de Tarumã.
Era uma tarde lindíssima e o sol que descambava por trás da colina sombreada por espessa mata, refletia-se brilhante nas águas da linda baía formada pelo Rio Negro.
O céu estava límpido e transparente e no horizonte fomavam as nuvens uma orla de ouro e rosa.
E a igara em que ia o moço tapuio cortava ligeiramente as águas buliçosas do rio.
E triste como o canto da iumara, assim o semblante do moço tapuio.
Voltando do passeio bem tarde, havia atado a igara ao tronco da mamaurana e a noite passou-a sentado à soleira da cabana, pensativo, taciturno e proferindo de quando em vez palavras entrecortadas e sem sentido.
E a velha tapuia que amava-o com esse estremecimento das filhas das selvas, chorava silenciosa ao ver a tristeza profunda que sombreava o semblante do filho.
"Ouve, mãe, disse o moço, porque só a ti me atrevo a contar as tristezas que me pungem a alma.
"Era uma moça tão linda... tão linda como ainda não encontrei assim entre as filhas de Manaus.
"A tarde era bela, e a igara vogava ligeira em direção à ponta do Tarumã.
"De repente ouvi um cantar longínquo, como uma voz harmoniosa, que se confundia com o sussurrar da brisa por entre as folhas das palmeiras.
"E a igara cortava ligeira as águas do rio e mais distintos me chegavam aos ouvidos os sons daquela voz que cantava.
"E depois eu vi... como era bela, mãe! Como era bela a mulher que ali se achava!
"Estava sentada à margem do rio. Tinha os cabelos louros como se fossem de ouro, presos por flores de mururé, e cantava, cantava... como nunca ouvi cantar assim.
"Depois ergueu os olhos verdes para mim, sorriu-se um momento, estendeu-me os braços como se neles quisesse me entrelaçar e desapareceu cantando por entre as águas do igarapé que se abriram para recebê-la.
"Mãe, como era linda a moça que ali vi... Como eram melodiosos os sons daquela voz que cantava! "
Dos olhos da velha tapuia caíram pelas faces tostadas duas lágrimas silenciosas.
"Filho, murmurou, não voltes mais ao igarapé do Tarumã. A mulher que ali viste é a Iara, filho!... Seu sorriso é a morte... Não lhe ouças a voz para que não cedas ao encanto"
E o moço tapuio sentado à soleira da cabana, deixou pender para o chão a fronte pensativa.
E no dia seguinte ao pôr-do-sol, a igara cortava de novo ligeira as águas do Tarumã.
Nela ia o moço tapuio esquecido dos conselhos maternos.
O que lhe aconteceu depois, ninguém o sabe, porque também ninguém mais o vira.
Diziam, porém, alguns pescadores, que ao passarem pelo igarapé do Tarumã em horas mortas da noite, viam ao longe um vulto de uma mulher que cantava e ao lado dela um vulto de homem.
E quando alguém mais ousado se aproximava, abriam-se as águas do rio e nelas os dois vultos se atiravam.
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quinta-feira, 21 de maio de 2009
IARA MÃE D'ÁGUA
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bom
ResponderExcluireu estou fazendo um trabalho sobre mãe´dagua obrigado
nossa tanta coisa sem sentido quem vai acreditar numa besteira dessa
ResponderExcluirr:eu