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terça-feira, 12 de maio de 2009

Laranjeiras: o protestante


Esta história foi contada primeiro por Raimundo Nonato no seu livro "Memórias de um Retirante" e repetida pelo professor Vingt-un Rosado em livros e plaquetes. É a história de um incidente ocorrido em Mossoró quando da primeira pregação evangélica por um pastor protestante.
Mossoró nasceu ao redor de uma igreja católica, a então "Capela de Santa Luzia", tendo, ao longo dos anos, vários padres como governantes, sendo um deles, o Vigário Antônio Joaquim, que foi Deputado Provincial, responsável pelo projeto que deu a Mossoró honras de cidade, através da Lei nº 620 de 9 de novembro de 1870. Era, portanto, uma cidade tipicamente católica, que vivia sob as bênçãos de Santa Luzia.
Mas um dia chegou a Mossoró dois homens de maneiras estranhas, vindos de Sergipe, "sendo um magro e alto, de olhos vivos, movimentos rápidos e linguagem arrevesada; o outro, um negro, cheio, alegre, de rosto luzidio, todo de branco, com uma velha pasta de couro a tiracolo e um barítono debaixo do braço", conforme descrição de Raimundo Nonato. Visitaram residências, o comércio e os colégios da cidade, convidando o povo a comparecer a um culto que teria como local a praça enfrente a Loja Maçônica, onde já haviam pendurados faróis a gás nas grades do muro da Maçonaria.
No local e hora marcada chegou Laranjeiras, assim se chamava o pregador protestante, acompanhado de outros e já encontrou no local uma certa aglomeração de pessoas que ali estava atraída pela claridade dos faróis e pela curiosidade. As pessoas com cadeiras nas calçadas, encostadas nas árvores ou sentadas no chão, comentavam o que estava para acontecer.
Quando o ato começou, o murmúrio foi abafado pela música vibrante e pela sonoridade do barítono. A voz forte do pregador e as suas palavras que invocavam o nome de Deus, motivaram uma atitude silenciosa dos presentes.
Tudo ia bem até que do outro lado da rua aparecem grupos furiosos, que ao ouvirem o pregador dizer: "Eu sou aquele que trago a palavra do Nazareno", prorromperam em gritos, soltando palavrões, atirando pedras no meio do povo e amassando os faróis. E o culto acabou.
Laranjeiras, não fazendo caso do que sucedera na Maçonaria, já na noite seguinte se encontrava na Rua do Gurgel, trepado em um caixão, cantando, repetindo versículos e palavras dos evangelistas. E mais uma vez a confusão começou, com pauladas, gritos e todo tipo de agressão aos seguidores do pastor protestante. Esse, no entanto, para evitar piores conseqüências, entrou em uma bodega, que pertencia a Zacarias Praxedes, fechando a porta às suas costas.
A essa altura, a rua toda tinha-se transformado em um campo de guerra.
Mas de repente, percebeu-se a presença de um homem, que abrindo caminho no meio do povo sem dificuldade, caminhava em direção a bodega onde se escondera o pregador. Ao chegar, bateu na porta e falou. O dono veio abri-la, com outros, de rifle em punho.
Pouco tempo depois Laranjeiras saiu de braço com o seu novo companheiro, que o salvara da situação, e caminhava, entre aquela mesma gente que momentos antes queria rasgá-lo e que, sem saber por que, olhava-o até com complacência, sem ódio, sem espírito de violência.
No outro dia, numa roda de comentários, um deles disse: "- Eita!... capa verde de uma figa, se não fosse seu Rosado, nem o diabo lhe salvava o couro!..."
O farmacêutico Jerônimo Rosado Maia, o seu Rosado, como era mais conhecido, usando do seu prestígio junto ao povo, defendera o pastor sergipano que viera pregar a sua fé e enfrentava o radicalismo católico de então, de um trucidamento que parecia inevitável.
O professor Vingt-un Rosado completa esta história afirmando que nos dias e nos anos seguintes, ao ingressarem em qualquer igreja protestante, os Rosado passaram a merecer a simpatia dos crentes, que não deixavam de recordar o gesto cristão do velho Rosado.
FONTE - COLUNA DE GERALDO MAIA, NO JORNAL O MOSSOROENSE (17/10/1872), EDIÇÃO DO DIA 21 DE FEVEREIRO DE 2002) - gemaia@bol.com.br

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